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Cannabis medicinal no tratamento do autismo

  • Foto do escritor: Dra. Rafaela Bock
    Dra. Rafaela Bock
  • 19 de jun.
  • 10 min de leitura

Atualizado: 20 de jun.

A cannabis medicinal no tratamento do autismo proporciona esperança na qualidade de vida para muitas famílias. Afinal, em muitos casos pode ser uma ferramenta terapêutica importante ou mesmo um “divisor de águas” na vida das famílias, especialmente quando os sintomas associados ao Transtorno do Espectro Autista (TEA) causam sofrimento significativo e as abordagens convencionais falham. 


O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição neurológica caracterizada por dificuldades na interação social e padrões comportamentais restritos ou repetitivos. Pessoas com TEA frequentemente apresentam alterações sensoriais (hiper ou hipo reatividade aos estímulos) e maior resistência a mudanças. O termo “espectro” se refere à grande variação de manifestações e ao fato de que alguns indivíduos precisam de menos suporte e outros de suporte substancial.


Nas últimas décadas, observou-se um aumento expressivo na prevalência dos diagnósticos do transtorno. Esse crescimento pode ser explicado, em parte, pelo aprimoramento dos critérios diagnósticos, pela maior conscientização da população e dos profissionais de saúde e pelo aumento do acesso à avaliação especializada. No entanto, também se discute a possibilidade de um aumento real da ocorrência da condição e, em alguns contextos, de sobrediagnóstico.


Sintomas principais e comorbidades de TEA

Os sintomas nucleares incluem dificuldades de comunicação social, interesses restritos e comportamentos repetitivos. Muitas pessoas com TEA também sofrem com ansiedade, irritabilidade, agressividade, autoagressividade, hiperatividade, impulsividade, insônia, seletividade alimentar e epilepsia. Tais sintomas impactam a qualidade de vida e muitas vezes exigem uso de fármacos para controle.



Tratamentos convencionais e suas limitações O tratamento do TEA é multifacetado e deve ser individualizado de acordo com as necessidades de cada pessoa. As intervenções terapêuticas e educacionais são consideradas a primeira linha de tratamento, especialmente na infância. Dependendo do perfil de cada paciente, podem ser recomendados acompanhamento com psicologia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, psicopedagogia, suporte escolar e orientação familiar.


Essas abordagens têm como objetivo promover o desenvolvimento da comunicação, da autonomia, das habilidades sociais e da adaptação às demandas do dia a dia. Embora sejam fundamentais, nem sempre conseguem controlar adequadamente todos os sintomas ou dificuldades associadas ao TEA.


Em relação ao tratamento medicamentoso, os fármacos são utilizados principalmente para controlar sintomas associados e comorbidades que podem comprometer significativamente a qualidade de vida, como irritabilidade, agressividade, ansiedade, hiperatividade, alterações do sono e dificuldades de regulação emocional. Em muitos casos, o objetivo não é apenas reduzir sintomas, mas também favorecer o bem-estar, a participação nas atividades do dia a dia e um melhor aproveitamento das intervenções terapêuticas e educacionais 


Medicações como risperidona e aripiprazol podem ser utilizadas para irritabilidade, agressividade e agitação. A melatonina é frequentemente empregada para distúrbios do sono, enquanto antidepressivos, estimulantes ou estabilizadores de humor podem ser considerados em situações específicas, como ansiedade, depressão, TDAH ou alterações importantes de humor.


Apesar dos benefícios observados em muitos pacientes, essas medicações podem estar associadas a efeitos adversos como ganho de peso, alterações metabólicas, sonolência, irritabilidade, alterações do apetite e, em alguns casos, prejuízo funcional. Além disso, a resposta ao tratamento varia consideravelmente entre os indivíduos, e nem todos apresentam melhora satisfatória.


Diante dessas limitações, cresce o interesse por abordagens complementares que possam contribuir para o manejo de sintomas com menos efeitos colaterais. Nesse contexto, a cannabis medicinal tem sido cada vez mais estudada, sempre dentro de um plano de cuidado amplo e integrado.


Minha percepção na prática médica com cannabis medicinal no tratamento do autismo

Na prática clínica, observo que algumas crianças chegam às terapias em um estado de sofrimento tão intenso que têm dificuldade para aproveitar plenamente as intervenções propostas: irritabilidade, inquietação ou crises frequentes podem dificultar a participação, a concentração e o engajamento nas atividades terapêuticas. Nesses casos, quando bem indicada, a cannabis medicinal pode atuar como uma ferramenta complementar para favorecer a regulação emocional e comportamental. O objetivo não é substituir as terapias, mas criar condições para que a criança consiga participar delas com mais conforto, atenção e disponibilidade para aprender.

Cannabis medicinal no tratamento do autismo

O sistema endocanabinoide (SEC) e o TEA

O sistema endocanabinoide (SEC) é um conjunto de receptores (CB1 e CB2), endocanabinoides (como anandamida e 2‑AG) e enzimas que regulam sua síntese e degradação. Ele participa da regulação de funções como sono, humor, ansiedade, comportamento social, processamento sensorial, resposta ao estresse e inflamação.


Estudos sugerem que pessoas com TEA podem apresentar redução do “tônus endocanabinoide” ou alterações nos receptores. Um estudo de 2018 encontrou níveis mais baixos de anandamida e 2‑AG em crianças com TEA comparadas a crianças neurotípicas. 


Essas descobertas levaram pesquisadores a investigar se a modulação do sistema endocanabinoide poderia contribuir para o manejo de alguns sintomas associados ao TEA. Embora ainda não possamos afirmar que a cannabis "corrige" as alterações do sistema endocanabinoide presentes no TEA, existe uma plausibilidade biológica consistente para seu uso como ferramenta terapêutica complementar e isso condiz com o observado na prática clínica. Em outras palavras, se parte dos sintomas estiver relacionada a um funcionamento inadequado desse sistema regulador, sua modulação pode ajudar alguns pacientes a alcançar um maior equilíbrio fisiológico e comportamental.

Cannabis medicinal no tratamento do autismo: como auxilia o paciente?


A planta da cannabis contém dezenas de substâncias chamadas canabinoides. Entre elas, as mais estudadas no TEA são o canabidiol (CBD) e o tetrahidrocanabinol (THC).


O CBD é o composto mais utilizado no tratamento de pessoas com TEA. Ele não provoca intoxicação, apresentando um perfil de segurança favorável quando utilizado com acompanhamento médico


Pesquisas demonstram que o CBD contribui para a regulação de funções frequentemente alteradas no autismo, como ansiedade, resposta ao estresse, sono, irritabilidade e processamento sensorial. Na prática clínica, muitos pacientes apresentam melhora da regulação emocional, maior tranquilidade e redução do sofrimento associado a sintomas que interferem no dia a dia.


O THC é o principal componente psicoativo da cannabis e, por isso, exige mais cautela, especialmente em crianças. Apesar disso, quantidades controladas podem ser úteis em alguns casos selecionados, particularmente quando há irritabilidade importante, agitação, rigidez comportamental, dificuldades de sono ou redução importante do apetite. A decisão de utilizar THC depende de diversos fatores, incluindo idade, sintomas predominantes, histórico clínico e resposta ao tratamento.


Além do CBD e do THC, a cannabis contém diversos outros compostos que podem contribuir para o tratamento. Por esse motivo, alguns pacientes podem se beneficiar de formulações chamadas full spectrum, que preservam vários componentes naturais da planta atuando de forma sinérgica, produzindo um efeito terapêutico mais amplo.

Um dos objetivos mais importantes do tratamento é permitir que a pessoa participe de forma mais confortável e ativa da própria rotina

Quando sintomas como ansiedade intensa, alterações do sono, agitação ou crises frequentes são reduzidos, muitas crianças conseguem aproveitar melhor as terapias, a escola, os momentos em família e as oportunidades de aprendizagem. O objetivo não é substituir as intervenções multidisciplinares, mas potencializar seus resultados ao reduzir barreiras que dificultam o desenvolvimento.


Em resumo, a cannabis medicinal não trata apenas um sintoma específico. Ela atua em diferentes sistemas do organismo e pode contribuir para uma melhora global da qualidade de vida, sempre como parte de um plano terapêutico amplo e individualizado

Cannabis medicinal no tratamento do autismo

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Como são escolhidas as formulações e as doses da cannabis medicinal no tratamento do autismo?

Não existe uma única formulação de cannabis medicinal que funcione para todas as pessoas com TEA. Gosto de fazer uma comparação que ajuda a entender esse conceito: assim como falamos em espectro autista porque existem diferentes formas de manifestação do autismo, também podemos pensar em um espectro de formulações da cannabis, com composições distintas e características próprias.


De forma simplificada, podemos dividir as formulações em:

  • CBD isolado: contém apenas canabidiol (CBD).

  • Espectro amplo (Broad spectrum): contém CBD + outros canabinoides, terpenos e compostos da planta, mas sem THC detectável.

  • Espectro completo (Full spectrum): preserva também o THC.

A escolha depende de fatores como idade, sintomas, sensibilidade individual, comorbidades, medicamentos em uso e objetivos terapêuticos. Na maioria dos casos, formulações ricas em CBD constituem a base do tratamento.


Outro ponto importante é que a cannabis medicinal raramente produz seus melhores resultados de forma imediata. O tratamento geralmente é iniciado com doses baixas, que são ajustadas gradualmente conforme a resposta clínica e a tolerabilidade. Durante esse processo, o médico também pode reavaliar outros medicamentos em uso e identificar oportunidades de desprescrição quando apropriado.


Costumo explicar às famílias que esse processo se parece mais com encontrar a regulagem ideal de um instrumento do que seguir uma receita pronta. Algumas pessoas respondem a doses muito pequenas, enquanto outras necessitam de ajustes mais amplos ou até mesmo de mudanças na formulação para alcançar os resultados desejados.


Por esse motivo, uma resposta inicial limitada não significa necessariamente que a cannabis medicinal não seja uma opção para aquele paciente. Na prática clínica, é relativamente comum observar melhora significativa após ajustes da formulação, da dose ou da estratégia terapêutica.

Na cannabis medicinal e no TEA, o sucesso do tratamento depende menos de encontrar o produto 'certo' e mais de construir, com paciência e acompanhamento especializado, a estratégia certa para cada paciente."

Cannabis medicinal no tratamento do autismo

O que dizem os estudos sobre cannabis medicinal no autismo?

A pesquisa sobre cannabis medicinal no TEA vem crescendo rapidamente nos últimos anos. Embora ainda existam muitas perguntas a serem respondidas, os estudos publicados até o momento apontam resultados promissores para alguns sintomas frequentemente associados ao autismo.


Sumariamente, as pesquisas apontam que a cannabis medicinal pode contribuir para a redução da ansiedade, irritabilidade, agressividade, agitação, hiperatividade e alterações do sono em parte dos pacientes. Alguns estudos também observaram benefícios na regulação emocional, comportamento social, sensibilidade sensorial e convívio familiar.


Outro dado interessante é que muitos dos ganhos observados não se limitam a um único sintoma. Quando a criança dorme melhor, apresenta menos ansiedade ou menos crises comportamentais, frequentemente toda a rotina familiar é impactada positivamente. Isso também pode favorecer um melhor aproveitamento das terapias e das atividades escolares.


Os estudos realizados até o momento sugerem que formulações ricas em CBD apresentam um perfil de segurança favorável, com efeitos adversos geralmente leves e manejáveis quando o tratamento é conduzido com acompanhamento médico adequado.


Apesar dos resultados promissores, é importante manter expectativas realistas. A Cannabis medicinal não produz os mesmos resultados para todos: algumas pessoas apresentam benefícios discretos, enquanto outras vivenciam melhoras significativas na qualidade de vida.


Nesse contexto, a discussão científica vem evoluindo: mais do que perguntar se a cannabis funciona ou não para o autismo, pesquisadores agora buscam compreender quais pacientes tendem a se beneficiar mais do tratamento, quais sintomas respondem melhor e como personalizar a escolha das formulações para cada perfil clínico. 

Como saber se a cannabis medicinal pode ser uma opção para meu filho?

A indicação da cannabis medicinal depende de uma avaliação individualizada, considerando os sintomas, a intensidade do sofrimento, os tratamentos já realizados e os objetivos da família.


A cannabis costuma ser considerada quando existem dificuldades importantes que impactam a qualidade de vida da criança ou da família, como:

  • Ansiedade intensa;

  • Irritabilidade frequente;

  • Agressividade ou autoagressividade;

  • Alterações importantes do sono;

  • Hiperatividade e impulsividade;

  • Sensibilidades sensoriais marcantes;

  • Rigidez comportamental;

  • Epilepsia associada ao TEA.


Ela também pode ser uma opção quando os tratamentos convencionais não produziram os resultados esperados ou causaram efeitos colaterais difíceis de tolerar.


A cannabis é segura para crianças?

Essa é uma das dúvidas mais frequentes das famílias. Embora nenhuma intervenção seja completamente isenta de riscos e ainda faltem estudos de longo prazo, os estudos disponíveis sugerem que formulações ricas em CBD apresentam um perfil de segurança favorável quando utilizadas com acompanhamento médico adequado.


Os efeitos adversos mais relatados costumam ser leves ou moderados, incluindo sonolência, agitação, alterações gastrointestinais, irritabilidade transitória ou mudanças no apetite. É fundamental que a introdução seja gradual e monitorada de perto.


Um ponto a ser considerado é que quanto mais precocemente conseguimos reduzir barreiras ao desenvolvimento e ampliar oportunidades de aprendizagem, melhores tendem a ser os desfechos ao longo da vida. 


A infância é um período de intensa neuroplasticidade, ou seja, uma fase em que o cérebro apresenta grande capacidade de adaptação e aprendizado.Intervenções precoces e bem direcionadas tendem a gerar impactos mais significativos no desenvolvimento da comunicação, da autonomia, das habilidades sociais e da qualidade de vida.


O objetivo de qualquer tratamento não é apenas reduzir sintomas isolados, mas criar melhores condições para que a criança participe das terapias, das atividades escolares, das interações familiares e das experiências que favorecem seu desenvolvimento.


A cannabis pode substituir outros medicamentos?

Em alguns casos, sim, mas nem sempre. O objetivo inicial da cannabis medicinal não é retirar medicamentos, mas melhorar a qualidade de vida do paciente e reduzir sintomas que causam sofrimento ou prejuízo funcional.

Muitos pacientes iniciam o tratamento mantendo as medicações que já utilizam. À medida que ocorre melhora clínica, o médico pode reavaliar a necessidade de alguns medicamentos e, quando apropriado, realizar reduções graduais e monitoradas.


É comum que famílias perguntem sobre o uso conjunto da cannabis com medicamentos como risperidona, aripiprazol, metilfenidato, antidepressivos ou melatonina. Essa associação acontece à critério médico. O mais importante é que qualquer ajuste seja realizado de forma planejada e supervisionada. Medicamentos nunca devem ser reduzidos ou interrompidos por conta própria.

Quando existe uma boa resposta clínica, alguns pacientes conseguem reduzir doses ou até suspender determinadas medicações ao longo do tempo. Outros continuam se beneficiando da combinação de diferentes abordagens.


Minha visão sobre a cannabis medicinal no TEA

Ao longo dos últimos anos, acompanhei centenas de pacientes utilizando cannabis medicinal para diferentes condições de saúde, incluindo crianças, adolescentes e adultos com Transtorno do Espectro Autista. Tive a oportunidade de acompanhar pessoas com diferentes níveis de suporte, perfis clínicos e necessidades terapêuticas, desde casos mais leves até quadros complexos associados a múltiplas comorbidades e importante impacto na qualidade de vida. 

Na minha visão, a cannabis medicinal não deve ser apresentada como uma cura para o autismo nem como substituta das terapias multidisciplinares. Ainda assim, quando bem indicada e integrada a um plano terapêutico abrangente, pode ser uma ferramenta extremamente valiosa para reduzir barreiras que limitam o desenvolvimento, a autonomia e a qualidade de vida. 

Frequentemente observo que, ao melhorar sintomas como ansiedade, irritabilidade, alterações do sono, agitação, impulsividade ou desregulação emocional, os pacientes passam a aproveitar melhor as terapias, a escola, as interações sociais e as atividades do dia a dia. Em outras palavras, a cannabis não muda quem a pessoa é, mas pode ajudá-la a expressar melhor seu potencial.


Também aprendi que tanto o TEA quanto o sistema endocanabinoide são extremamente complexos e individuais. O mesmo produto que transforma a vida de uma pessoa pode trazer poucos benefícios para outra. Em muitos casos, encontrar a formulação e a dose ideais exige tempo, observação cuidadosa, ajustes graduais e uma parceria próxima entre médico, paciente e família.


Considero fundamental que o tratamento seja conduzido de forma individualizada, cautelosa e baseada em evidências. Quando a resposta inicial não é a esperada, isso não significa necessariamente que a cannabis não seja uma opção válida. Pode ser necessário reavaliar a estratégia terapêutica, compreender melhor as particularidades daquele paciente e realizar ajustes graduais até encontrar a combinação mais adequada para suas necessidades. 


Meu papel como médica não é apenas prescrever cannabis, mas compreender a pessoa de maneira ampla, avaliar riscos e benefícios, integrar diferentes abordagens terapêuticas e acompanhar sua evolução ao longo do tempo.

A cannabis medicinal não é uma cura para o autismo. Mas para muitos pacientes e famílias pode representar uma oportunidade real de mais conforto, participação e autonomia.



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