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Como parar de fumar?

Foto do escritor: Dra. Rafaela Bock
Dra. Rafaela Bock
31 de ago.
8 min de leitura

Parar de fumar não depende apenas de força de vontade. 

A nicotina provoca dependência e interfere nos circuitos cerebrais ligados à recompensa, ao prazer e à repetição de comportamentos. Com o tempo, o cérebro se acostuma com a presença da nicotina e interpreta sua abstinência como algo anormal, desencadeando irritabilidade, ansiedade, dificuldade de concentração, alterações do sono e um desejo intenso de fumar.


Mas o problema vai muito além disso: muitos pacientes chegam até meu consultório, relatando um verdadeiro relacionamento com o cigarro: ele esteve presente em comemorações, depois do expediente, na roda de conversa com os amigos e até mesmo serviu como consolo em algum momento de frustração. Para muitos, o cigarro já faz parte de sua identidade, ao ponto que não conseguem sequer imaginar sua vida sem fumar. 


Esse apego torna o processo ainda mais complexo, uma vez que o paciente pode sentir que deixar o cigarro é deixar parte de algo maior: arrancar uma parte de si.Fumar também pode ser parte de um ritual que já está enraizado no comportamento da pessoa como se fosse algo automático: Fumar ao acordar, após as refeições, junto com o café, acompanhado de uma bebida ou nas pausas do trabalho. 


Ainda existem pessoas que enfrentam receios, como o medo de ganhar peso, dos sintomas da abstinência, medo de perder o convívio com determinados círculos sociais, medo de falharem e serem julgados ou desencorajados.

Compreender de fato os medos, receios, hábitos e contexto de uso do tabaco é fundamental para auxiliar o paciente nesse processo.


Estou motivado a parar de fumar?

O primeiro passo é entender se você está mesmo motivado a parar de fumar. Algumas pessoas ainda estão presas num estágio em que não compreendem o cigarro como uma ameaça real ou que podem parar a qualquer momento se quisessem. Essa é uma armadilha perigosa e se você está nela deve, antes de tudo, repensar se vale a pena correr os riscos e enfrentar os prejuízos do fumo.

Como parar de fumar

Outras pessoas enfrentam uma espécie de ambivalência:

  • Por um lado, já reconheceram o problema e desejam genuinamente parar.

  • Por outro, tem vários motivos para continuarem fumando


A boa notícia aqui é que reconhecer esse impasse é o primeiro passo para mudar seu comportamento. Se você está preso nessa indecisão, minha recomendação é pesar bem os dois lados, como se pesasse-os numa balança, e assim tomar uma decisão firme e assertiva:

Como parar de fumar

Quero parar de fumar: o que fazer?

Se essa decisão já está firmada e você está comprometido com ela, o próximo passo é escolher uma data próxima para parar e decidir se vai parar aos poucos ou parar de uma vez. É importante não adiar muito em transformar essa decisão em ação.

Você pode escolher uma data que seja especial, simbólica ou significativa, afinal, essa vai ser uma data importante para você: o dia que conquistou a sua liberdade do vício. Na minha história como médica já vi muitos pacientes transformarem essa vitória em algo transformador que abriu portas para várias outras conquistas em suas jornadas de cuidados com a saúde e autoestima.


Não consigo parar de fumar, preciso de ajuda. Tem tratamento para parar o cigarro?

Sim, um médico pode ajudar você a parar de fumar por meio de um plano estruturado e individualizado. Durante a consulta, avalio o grau de dependência, as principais dificuldades, os gatilhos emocionais e comportamentais, os sintomas de abstinência e as tentativas anteriores. A partir disso, construímos estratégias práticas para lidar com a fissura, reorganizar a rotina e atravessar os primeiros dias sem fumar.

Alguns pacientes também podem se beneficiar do uso de medicamentos para reduzir a vontade de fumar e aliviar os sintomas da abstinência. No entanto, a medicação é apenas uma parte do processo e precisa estar associada ao acompanhamento, às mudanças de hábitos e ao desenvolvimento de novas formas de enfrentar o estresse e outras situações relacionadas ao cigarro.

Nenhum medicamento deve ser utilizado por conta própria. A escolha da opção mais adequada, a dose e o tempo de uso dependem das necessidades e das condições de saúde de cada paciente e devem ser definidos e acompanhados pelo médico.

Quais tratamentos apresentam os melhores resultados para parar de fumar?

Quando o objetivo é abandonar o cigarro, as evidências mais fortes ainda estão nos tratamentos já utilizados para a dependência de nicotina. A Organização Mundial da Saúde recomenda a reposição de nicotina, a vareniclina e a bupropiona como opções de primeira linha. 

A vareniclina atua nos receptores ligados à nicotina, reduzindo a fissura, os sintomas de abstinência e a sensação de recompensa provocada pelo cigarro. Revisões de estudos clínicos indicam que ela está entre as opções isoladas mais eficazes. Isso não significa que seja adequada para todos: a prescrição precisa considerar o histórico clínico, os medicamentos em uso e os possíveis efeitos adversos.

A terapia de reposição de nicotina oferece doses controladas da substância sem expor o organismo às inúmeras substâncias tóxicas produzidas pela queima do tabaco. Pode ser utilizada por meio de adesivos, gomas e pastilhas, entre outras apresentações. A combinação de uma forma de ação prolongada, como o adesivo, com outra de ação rápida, como goma ou pastilha, tende a funcionar bem.

A bupropiona pode reduzir a vontade de fumar e alguns sintomas da abstinência, além de ajudar no controle do peso, mas também possui contraindicações e não deve ser utilizada sem avaliação médica. A escolha entre vareniclina, reposição de nicotina, bupropiona ou uma combinação depende do grau de dependência, das tentativas anteriores, da saúde física e mental e das preferências do paciente.

Nos últimos anos, pesquisadores também começaram a investigar se os canabinoides poderiam auxiliar nesse processo. Entre eles, o canabidiol, conhecido como CBD, é o que concentra os resultados mais promissores. 

O que o CBD pode fazer no processo de parar de fumar?

O possível papel do CBD na dependência de nicotina vem sendo estudado principalmente pela capacidade de interferir em alguns mecanismos relacionados ao hábito, aos gatilhos e à recompensa.


Um estudo apontou que os participantes receberam um inalador com CBD ou placebo e foram orientados a utilizá-lo quando sentissem vontade de fumar. No grupo que recebeu CBD, houve uma redução de aproximadamente 40% no número de cigarros consumidos durante o período. No grupo placebo, não foi observada uma redução semelhante.


O resultado chama atenção, mas precisa ser interpretado com cautela. O estudo avaliou principalmente a redução do consumo, não a abstinência prolongada. Além disso, o CBD não reduziu de forma significativa o desejo relatado de fumar


O CBD talvez não elimine diretamente a vontade de fumar, mas pode diminuir a força de alguns gatilhos que mantêm o comportamento automático. Para confirmar se isso realmente aumenta as taxas de abandono do cigarro, ainda são necessários estudos maiores, com acompanhamento por vários meses.

Na minha prática clínica, utilizo o CBD como adjuvante no manejo da ansiedade, irritabilidade e estresse relacionados à abstinência, dentro de um cuidado mais amplo e estruturado.

E fumar cannabis, pode ajudar a abandonar o cigarro?

Estudos sobre o uso conjunto de cannabis, especialmente fumada, e tabaco trazem um alerta. Em determinados grupos, especialmente entre usuários frequentes, fumar maconha foi associado a piores resultados na cessação do tabagismo. Quando as duas substâncias são usadas juntas ou em situações semelhantes, uma pode funcionar como gatilho para a outra e manter o ritual de fumar.


Substituir o cigarro pelo uso fumado de cannabis também não elimina os danos provocados pela combustão. A fumaça continua levando partículas e substâncias irritantes para o sistema respiratório.


Quando se fala em possível uso de canabinoides como apoio à cessação do tabagismo, trata-se do uso de forma medicinal, preferencialmente por vias que não envolvam combustão, como óleos ou gomas. Assim, evita-se a exposição à fumaça e ao próprio ritual de fumar.


CBD e THC podem ajudar a parar de usar maconha?

Na minha prática, também observo resultados muito positivos no uso medicinal e controlado de canabinoides para pacientes que desejam parar de fumar maconha. As pesquisas indicam que o CBD e THC podem ajudar a reduzir o consumo, controlar a ansiedade, sintomas da abstinência, diminuir fissura, irritabilidade e alterações do sono. Isso não significa substituir a maconha fumada por outra forma de consumo sem acompanhamento: a composição, a dose e a redução precisam ser planejadas individualmente. Os resultados são promissores, especialmente quando o tratamento é combinado com estratégias comportamentais.


A terapia ajuda a parar de fumar?

Sim. A dependência do cigarro não é apenas química: também envolve hábitos, emoções, pensamentos e situações que funcionam como gatilhos. A Terapia Cognitivo-Comportamental é uma das abordagens mais utilizadas, pois ajuda o paciente a reconhecer esses padrões, enfrentar a fissura, reorganizar a rotina, controlar o estresse e prevenir recaídas. A entrevista motivacional também pode ajudar quem ainda está dividido sobre parar.

O tratamento mais eficaz costuma ser combinado

O caminho com maior respaldo científico não está em uma solução isolada. 

Os melhores resultados aparecem quando três frentes trabalham juntas: avaliação clínica, tratamento da dependência física e mudança dos padrões comportamentais.

Isso também muda a forma de enxergar uma recaída. Voltar a fumar não significa que o tratamento fracassou ou que a pessoa não tem força de vontade. Pode indicar que a dose precisa ser revista, que determinados gatilhos ainda não foram bem trabalhados ou que o plano precisa de mais acompanhamento. Parar de fumar é um processo clínico e comportamental, e não uma prova de resistência pessoal.


O acompanhamento médico faz diferença

Pessoas fumam por motivos diferentes e cada um tem seus principais motivos para parar - ou não - de fumar. Para algumas, o cigarro está associado ao alívio do estresse; para outras, ao convívio social ou a momentos específicos do dia. Também variam o grau de dependência, o número de tentativas prévias e os sintomas de abstinência.

Uma avaliação médica permite compreender esses fatores, identificar o estágio motivacional para avançar nas mudanças necessárias, determinar fortalezas, fraquezas e estratégias de enfrentamento, monitorando a adesão, resgatando recidivas e intensificando a abordagem quando necessário.

O médico também verifica possíveis indicações e contraindicações a medicamentos e canabinóides.

Como conduzo o acompanhamento para parar de fumar

Parar de fumar não é apenas retirar o cigarro da rotina. É aprender novas formas de enfrentar situações nas quais ele ocupou espaço durante muito tempo. Por isso, além de avaliar a necessidade de tratamento medicamentoso, trabalho estratégias comportamentais adaptadas à realidade de cada paciente.


Durante a consulta, ensino o paciente a viver os primeiros dias sem fumar, explicando quais sintomas podem surgir e como interpretá-los. Irritabilidade, ansiedade, alterações do sono e aumento da vontade de fumar são manifestações esperadas da abstinência e não significam que o tratamento esteja fracassando.


Também trabalhamos para compreender os sentimentos que podem ficar mais evidentes e identificar os gatilhos relacionados ao cigarro, como estresse, conflitos, café, álcool, encontros sociais e determinados momentos do dia. A partir disso, desenvolvemos procedimentos práticos para lidar com a fissura, além de reestruturar a rotina e definir quais hábitos devem ser evitados durante o processo.


Outro ponto importante é compreender que muitos fumantes usam o cigarro para fugir de situações estressantes. Quando ele é retirado, emoções e conflitos antes mascarados podem se tornar mais evidentes. Por isso, trabalhamos exercícios de relaxamento e pensamentos mais construtivos, reduzindo ideias como “eu não consigo”, “já fracassei antes” ou “um cigarro não fará diferença”.


A comunicação assertiva também pode fazer parte desse acompanhamento. O paciente aprende como expressar suas necessidades e estabelecer limites sem recorrer ao cigarro como forma de fuga. Em outras palavras, trabalhamos como ser mais assertivo e construtivo diante das dificuldades.


O acompanhamento ainda inclui um planejamento para lidar com possíveis deslizes ou recaídas. Fumar um cigarro não precisa significar abandonar todo o processo. É possível entender o que provocou aquela situação, ajustar a estratégia e continuar.


O objetivo é transformar a vontade de parar em um plano concreto e individualizado, Afinal, parar de fumar não depende apenas de resistência. É um processo que exige preparo, acompanhamento e a construção de novas maneiras de lidar com a vida sem o cigarro.



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