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Quando o paciente não se sente visto X a medicina que escolho praticar

Foto do escritor: Dra. Rafaela Bock
Dra. Rafaela Bock
6 de ago.
9 min de leitura

Atualizado: 7 de ago.

Há pacientes que chegam ao consultório com uma pasta cheia de exames, uma lista extensa de medicamentos, muitas dúvidas e vários diagnósticos. Ainda assim, sentem que algo importante ficou de fora: eles próprios.


O que mais incomoda nem é a ausência de uma resposta, é a sensação de não terem sido realmente ouvidos e vistos. Eles relatam os sintomas, mas não conseguiram explicar como tudo começou, como aquilo afetou sua vida, o que mais os preocupa ou o quanto a doença já roubou de suas relações, da autonomia e dos planos para o futuro.


Existe algo ainda mais difícil: essas pessoas procuraram ajuda justamente em um momento de sofrimento e vulnerabilidade, e não precisavam somente de uma receita a seguir, mas de reconhecimento por um profissional que fosse capaz de se aproximar com empatia do que está sendo vivido. 


Empatia e competência técnica não são opostas. Acolher o sofrimento não significa perder o raciocínio clínico, assumir para si a dor do outro ou prometer respostas que talvez ainda não existam. Significa reconhecer que existe uma pessoa atravessando aquela doença e que a forma como ela é recebida também interfere no cuidado.


O paciente sai com uma receita e uma série de orientações, mas continua sem compreender o que está acontecendo ou o que pode esperar. E o pior, muitas vezes procura um especialista para cada parte do corpo e, no meio de tantas condutas, acaba precisando organizar tudo sozinho ou chega a perceber que o tratamento proposto por um parece atrapalhar o de outro.

Mesmo quando a conduta está correta no papel, ela pode não se conectar com a vida real. Uma consulta pode ser tecnicamente adequada e, ainda assim, deixar o paciente se sentindo invisível.


Foi justamente o incômodo com esse tipo de cuidado, fragmentado, distante e impessoal, que ajudou a definir a médica que escolhi ser.


Paciente não se sente visto e desaparece atrás do diagnóstico

A medicina precisa nomear doenças: diagnósticos organizam o raciocínio, orientam investigações e ajudam a escolher tratamentos e calcular prognósticos. Mas as pessoas não podem ser colocadas em caixinhas, e o diagnóstico, sozinho, não conta toda a história.


Existe a doença como fenômeno biomédico e existe a experiência subjetiva de adoecer. Duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem viver situações muito diferentes. Uma consegue manter sua rotina. A outra perde autonomia, sono, renda e confiança no próprio corpo.


Foi no Método Clínico Centrado na Pessoa que encontrei uma forma mais organizada de fazer o que eu já considerava indispensável: compreender a doença e, ao mesmo tempo, compreender quem está vivendo aquela doença.


Isso exige escuta, uma escuta clinicamente atenta aos detalhes sobre a rotina, a sequência em que os sintomas apareceram, efeitos colaterais pouco valorizados e investigação ativa de preocupações que o paciente pode ter vergonha ou receio de contar, mas que podem mudar todo o raciocínio.


Escutar não significa concordar automaticamente com todas as hipóteses nem solicitar qualquer exame desejado e também não significa abandonar a ciência em nome da subjetividade. Significa reconhecer que uma história bem compreendida produz decisões clínicas melhores.


A Medicina de Família me ensinou a reunir o que foi dividido

Escolhi a Medicina de Família e Comunidade porque ela permite cuidar das pessoas de forma ampla, integral e ao longo do tempo. É uma especialidade que transita entre prevenção, investigação, tratamento, saúde mental e diferentes fases da vida. Mais do que circular por vários temas, ela ensina a estabelecer prioridades e a manter a responsabilidade pelo conjunto.


Na prática, muitos pacientes não precisam apenas de mais uma opinião sobre um sintoma. Precisam de alguém que organize exames, diagnósticos, medicamentos, especialistas, riscos e próximos passos. Alguém que perceba quando duas prescrições não conversam entre si, quando um tratamento antigo precisa ser revisto ou quando um novo encaminhamento realmente acrescentará algo.

Coordenação do cuidado é isso: o paciente não precisa ligar sozinho todas as peças da própria saúde. Também existe uma diferença importante entre atender uma pessoa uma vez e acompanhá-la. Uma consulta mostra apenas um recorte. O acompanhamento permite observar a evolução, reconhecer padrões, avaliar a resposta ao tratamento e rever decisões.


A verdadeira confiança entre médico e paciente nasce de pilares consolidados como a cooperação, integridade, compaixão e a continuidade do cuidado. Quando se estabelece essa conexão de respeito mútuo, o paciente ganha segurança para contar melhor sua história, relatar efeitos adversos, dividir seus medos e participar ativamente das decisões.


O corpo não funciona separado da vida


Sono, dor, alimentação, humor, trabalho, relações, experiências anteriores e contexto social interferem uns nos outros. O corpo é um sistema em comunicação constante com o ambiente. Dessa forma, raramente consigo compreender um sintoma complexo olhando apenas para um órgão ou para um resultado de exame.


Meu cuidado considera dimensões biológicas, emocionais, sociais e existenciais. Isso não quer dizer que devemos reduzir todas as justificativas psicológicas ou adotar abordagens terapêuticas aleatórias. O verdadeiro papel do médico consiste em examinar como essas diferentes esferas se conectam e identificar quais delas estão agindo diretamente sobre a queixa relatada por cada indivíduo.


Às vezes, a prioridade é tratar uma doença bem definida. Em outras situações, precisamos cuidar de fatores que perpetuam o sofrimento: privação de sono, sobrecarga, medo do movimento, efeitos adversos, isolamento, conflitos ou uma rotina que tornou o plano terapêutico impossível de cumprir.


Há uma frase que me acompanha: quem só sabe medicina, nem medicina sabe. Tudo pode aparecer dentro de um consultório. Luto, culpa, relações familiares, dificuldades financeiras, perda de autonomia, questões sobre propósito e sentido. Conhecer doenças é indispensável. Compreender pessoas exige um repertório maior.



Cuidar bem também é saber quando não intervir

Existe uma ideia de que uma consulta boa precisa terminar com muitos exames, encaminhamentos ou medicamentos. Eu não concordo com isso.

Cada intervenção tem um custo, um risco e a possibilidade de produzir consequências que não estavam previstas: Um exame sem indicação pode gerar um resultado duvidoso, novos procedimentos cada vez mais invasivos e ansiedade; um medicamento pode permanecer por anos depois de perder sua função; dois tratamentos isoladamente razoáveis podem se tornar inadequados quando combinados. 

Na minha prática acredito ser fundamental proteger o paciente dos danos causados por intervenções mal indicadas ou excessivas. Em alguns casos, cuidar significa investigar menos, observar com segurança, revisar prescrições e selecionar o timing correto de agir.


Mas prudência não pode ser confundida com passividade. Sintomas persistentes não investigados não deveriam ser normalizados apenas como idade, estresse ou algo com que a pessoa precisa aprender a conviver. Nesses casos, o paciente sente isso como uma desesperança quase como se o seu caso não tivesse mais solução, o que pode trazer danos psicológicos. 


Uma boa medicina vive nesse equilíbrio: fazer o necessário, no momento adequado, sem transformar toda diferença em doença e sem abandonar o paciente diante de um sofrimento que ainda precisa de cuidado.


A ciência orienta e o julgamento clínico decide como aplicá-la

Todas as minhas condutas procuram se apoiar nas melhores evidências disponíveis, mas a medicina não é uma ciência exata aplicada da mesma forma a qualquer pessoa.


Os estudos mostram o que aconteceu, em média, com determinados grupos. Diante de um paciente real, ainda é necessário avaliar se aqueles resultados se aplicam ao seu diagnóstico, à sua idade, contexto social, aos medicamentos que utiliza, aos riscos que apresenta e aos objetivos que deseja alcançar.


A Medicina Baseada em Evidências combina três elementos: o conhecimento científico, a experiência clínica e os valores e preferências do paciente. Retirar qualquer um deles empobrece a decisão.


Existe algo de arte na medicina, mas não no sentido de improvisar. É a arte de tomar decisões responsáveis quando não há uma resposta única, linear ou imediata.


As incertezas podem surgir durante o acompanhamento com o paciente, mas isso não quer dizer que o mesmo vai ficar sem direcionamento ou tratamento. O diálogo nesses casos é fundamental. Explicar o que se sabe e ponderar as incertezas como uma possibilidade a ser avaliada faz parte quando lidamos com casos complexos. 


Quando o paciente não se sente visto, ele sente que precisa carregar tudo sozinho


Faço questão de explicar o motivo de cada recomendação e conduta durante as consultas. Quando o paciente entende o porquê de cada escolha, o tratamento deixa de ser apenas uma orientação médica e se torna um plano compartilhado. Percebo que esse pequeno detalhe deixa os pacientes mais seguros. 


Em vez de simplesmente receber orientações que nem sempre combinam com a rotina, construímos juntos um plano possível que realmente leve em consideração a vida do paciente. Meu papel é explicar as informações médicas de forma clara, analisar as opções de tratamento e ajudar você a definir o que é prioridade. Esse acolhimento faz com que meus pacientes sintam que não estão sozinhos. 


Como funciona minha consulta

A consulta começa pelo motivo que trouxe o paciente, mas raramente termina nele. Procuro reconstruir a história: quando os sintomas começaram, como evoluíram, o que já foi tentado, o que funcionou, o que trouxe efeitos adversos e o que mudou na vida desde então.


Reviso exames, diagnósticos, medicamentos, suplementos e tratamentos indicados por outros profissionais. Avalio possíveis interações e tento separar o que continua útil do que talvez precise ser questionado. Também procuro entender sono, alimentação, atividade física, saúde emocional, trabalho, relações e outros elementos que tenham relevância clínica para aquele caso.

Alguns pacientes chegam com muitos diagnósticos e pouca clareza. Outros receberam uma única explicação que passou a ser usada para qualquer sintoma. Diante de qualquer um desses cenários, eu retorno para um questionamento essencial objetivo: o que realmente está acontecendo com esse paciente?


Meu objetivo é que a pessoa saia compreendendo melhor o próprio quadro e sabendo quais são os próximos passos. Uma prescrição sem compreensão costuma durar pouco. Um plano que faz sentido tem mais chance de se sustentar.


Como a cannabis medicinal passou a integrar meu cuidado

Cuidar de forma ampla também me apresentou um desafio prático real: como agir quando diferentes sintomas se alimentam entre si, comprometem a qualidade de vida e não respondem bem às estratégias convencionais?


Essa pergunta não nasceu apenas do estudo, ela surgiu acompanhando pessoas cujos problemas raramente cabiam em um único diagnóstico:


  • Pacientes com dor crônica 

  • Pessoas em tratamento oncológico 

  • Pacientes com condições neurológicas 

  • Pessoas com ansiedade persistente, insônia, estresse crônico ou esgotamento 

  • Pessoas com TDAH, TEA 

  • Idosos com doenças como Alzheimer e Parkinson 


Sabe o que grande parte dessas condições tem em comum? Mesmo sendo doenças diferentes, seus sintomas se sobrepõem, afetando não apenas o corpo, mas também a rotina, as relações e a qualidade de vida do paciente e de sua família. Nesses casos, a cannabis medicinal pode ser uma importante aliada, pois pode ajudar no controle de vários desses sintomas ao mesmo tempo.


Essa característica pode ser especialmente útil em alguns quadros complexos, nos quais tratar cada manifestação de forma isolada nem sempre produz o resultado esperado. 


Por esse motivo, a cannabis medicinal se integrou à minha prática seguindo a mesma lógica que orienta todo o meu cuidado: uma abordagem ampla, humana e individualizada, que busca favorecer o equilíbrio e o bem-estar do paciente. 


Formação, experiência e atualização contínua


Essa forma de trabalhar é sustentada pela minha formação profissional. 

Sou graduada em Medicina pela PUCPR e fiz residência médica em Medicina de Família e Comunidade pela Secretaria Municipal da Saúde de Curitiba, cursando ano adicional (R3) em Gestão e Preceptoria de Medicina de Família e Comunidade na Secretaria Municipal de Saúde de Florianópolis e Especialização em Preceptoria de Medicina de Família e Comunidade pela UFCSPA.


Minha formação em medicina canabinoide inclui Extensão em Cannabis Medicinal pela UNIFESP e Pós-graduação em Medicina Canabinoide pela Human Skills Academy e Faculdade Anhanguera. Possuo ainda formação no Programa Nacional de Cessação do Tabagismo do Ministério da Saúde e atualmente curso a Certificação Thiago Castro em Transtorno do Espectro Autista.


Ao longo da trajetória profissional, atuei em serviços públicos e privados, atenção primária, telemedicina e saúde digital. Também tive experiência profissional em Coimbra, Portugal, e participei da elaboração de protocolos e materiais técnicos para profissionais de saúde


Atualização contínua, para mim, não é apenas acumular títulos, mas uma responsabilidade ética. Novas evidências modificam condutas, tecnologias criam possibilidades e aquilo que parecia adequado há alguns anos pode precisar ser revisto.

Também procuro ampliar meu repertório para além da medicina. Literatura, filosofia, experiências pessoais e as histórias que escuto no consultório ajudam a compreender dimensões humanas que não aparecem em um exame. 

Para quem é a minha consulta?


Minha forma de atender não é necessariamente a melhor para todas as pessoas. Há quem prefira uma consulta breve e focada em uma demanda muito específica. Há quem queira apenas renovar uma receita, solicitar um exame ou receber uma resposta imediata. Existem situações e serviços adequados para isso.


Minha proposta costuma fazer mais sentido para quem deseja compreender a saúde, participar das decisões, revisar tratamentos anteriores e construir um acompanhamento. Também exige abertura para conversar sobre hábitos, contexto, expectativas e aspectos da vida que podem estar relacionados ao adoecimento.

Se a expectativa for receber uma prescrição pronta de cannabis, sem avaliação e sem acompanhamento, provavelmente eu não sou a médica mais adequada. Se a pessoa procura certezas absolutas para um problema complexo, talvez também se frustre. Eu prefiro ser honesta sobre os limites do conhecimento e, a partir deles, construir um plano responsável.


Esse tipo de cuidado exige envolvimento dos dois lados. Da minha parte, estudo, atenção, raciocínio e acompanhamento. Do paciente, participação, retornos, comunicação e disposição para ajustar o plano quando necessário.


Nas avaliações que recebo, aparecem com frequência a atenção durante a consulta, às explicações detalhadas, a clareza e o cuidado em compreender a história antes de propor um tratamento. 

Meus perfis no Google e Doctoralia reúnem cerca de 500 opiniões e avaliação média de cinco estrelas. Esse feedback dos pacientes confirma o que busco na prática: acolhimento aliado a uma avaliação rigorosa, decisões compartilhadas e explicações claras, sem simplificar a complexidade do caso. 


Todos os comentários que recebo leio com carinho e atenção. Eles são uma motivação para eu manter meu atendimento com dedicação. A medicina é a minha profissão, mas também minha vocação, paixão e propósito.


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